Quando o pré-Carnaval chega, o território muda de ritmo: aumenta a circulação de pessoas, crescem atividades informais, surgem eventos de rua, e com isso também aparecem (ou se intensificam) riscos sociais que o SUAS conhece bem. É exatamente por isso que este período é estratégico para a Assistência Social: não para “apagar incêndio” depois, mas para organizar proteção antes da violação acontecer.
No SUAS, prevenção não é só campanha bonita. É rede articulada, fluxo combinado, orientação clara para a população e presença pública nos pontos onde a vulnerabilidade aumenta. E sim: no Carnaval, crianças e adolescentes podem ficar mais expostos a situações como trabalho infantil, violências e exploração sexual. O pré-Carnaval é a janela de tempo em que ainda dá para alinhar tudo com calma e agir com intencionalidade.
Por que o pré-Carnaval é um período crítico para o SUAS?
A festa em si é uma celebração à cultura e às conexões, não sendo uma questão em si mesma. A questão a ser observada é o contexto: grande fluxo de pessoas + consumo de álcool + economia informal acelerada + desorganização de rotinas familiares + fragilização da supervisão comunitária. Essa combinação pode aumentar situações de risco e também reduzir a capacidade de resposta, se a rede estiver desarticulada.
Para o SUAS, isso se traduz em três sinais de alerta no território:
- Crianças e adolescentes em possível situação de risco social circulando desacompanhados em horários incomuns e em áreas de festa.
- Aumento de “bicos” e atividades informais que podem colocar crianças/adolescentes em situação de trabalho infantil (ou situações-limite disfarçadas de “ajuda”).
- Cenário mais propício para a ocorrência de violências, assédios e exploração sexual, especialmente em ambientes de intensa circulação e vulnerabilidade.
O que define se o território vai proteger ou vai “naturalizar” essas situações é a resposta coletiva e antecipada.
O que o SUAS faz (e o que precisa fazer bem feito)
O SUAS não trabalha sozinho — e essa é uma boa notícia. A proteção acontece quando o SUAS assume seu papel com clareza e articula o Sistema de Garantia de Direitos e a rede intersetorial.
No pré-Carnaval, o SUAS pode atuar com força em quatro frentes:
- Acolhida e escuta qualificada
Se aparecer demanda, a unidade acolhe sem julgamento, orienta com clareza e registra corretamente. O primeiro atendimento pode ser o que define se a pessoa vai conseguir proteção ou se vai desistir de pedir ajuda. - Prevenção e mobilização comunitária
O SUAS tem legitimidade territorial: CRAS, CREAS, serviços e equipes conhecem os caminhos, os riscos e as famílias. Isso permite orientar, circular informação e mobilizar proteção de forma concreta, não genérica. - Articulação de rede e fluxos
Conselho Tutelar, saúde, educação, abordagem social (quando houver), segurança pública e órgãos do SGD precisam estar alinhados sobre: quem aciona quem, para onde encaminhar, quais são os plantões, o que fazer em caso de suspeita/denúncia e como evitar revitimização. - Presença pública e proteção nos “pontos quentes”
Onde tem maior circulação e vulnerabilidade, a rede precisa se fazer presente. Isso inclui pontos de apoio, orientação e visibilidade de canais de denúncia — com linguagem simples, direta e acessível.
Pré-Carnaval não é só “período de festa”. É período de gestão de risco social.
Checklist rápido: o que organizar nesta semana (para ontem)
Se você trabalha na gestão, na coordenação ou na ponta, aqui vai uma sugestão de roteiro objetivo do que precisa estar redondo antes da folia:
- Atualizar contatos e plantões da rede (CRAS/CREAS, Conselho Tutelar, UBS/CAPS, escolas, abordagens, conselhos, lideranças).
- Pactuar um fluxo único para situações envolvendo crianças e adolescentes (suspeita/denúncia, acolhida, encaminhamento, retorno).
- Definir pontos de apoio/ações no território (onde a rede vai estar, em que horários, com qual orientação).
- Preparar comunicação simples: “onde buscar ajuda”, “como denunciar”, “o que fazer se eu identificar uma situação”.
- Alinhar registros: como a equipe vai registrar, para garantir continuidade e não perder informação.
- Fazer um combinado de proteção com a comunidade: comerciantes, organizadores, blocos, lideranças locais, todos podem ser aliados se forem convocados do jeito certo.
A rede não se improvisa na emergência. Ela se organiza antes.
Se você está no SUAS, a sua ação esta semana pode evitar uma violação na semana que vem. Compartilhe este texto com sua equipe e com a rede do território e proponha uma reunião objetiva (30–40 minutos) com três decisões: fluxo, contatos e pontos de apoio. Se cada município fizer o básico bem alinhado, a proteção chega mais rápido para quem precisa — e o Carnaval termina com menos danos e mais responsabilidade pública.
Assinatura:
Jader Lopes
Consultor Técnico
SUAS Fácil
Referências Bibliográficas
Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social (PNAS/2004). Brasília: MDS, 2004.
Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Norma Operacional Básica do SUAS (NOB/SUAS). Brasília: MDS.
Brasil. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1993.